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Ensino integral acelera aprendizado de vulneráveis

Redação

Uma análise dos resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2025 revela que 77 das 100 escolas de ensino médio com melhor desempenho e menor nível socioeconômico operam em regime de tempo integral.

Este estudo, realizado pelo Instituto Sonho Grande e pelo Instituto Natura, é pioneiro ao cruzar o desempenho escolar do Ideb 2025 com o Indicador de Nível Socioeconômico (INSE) dos alunos brasileiros. Ele aponta que escolas de ensino médio em tempo integral demonstram performance superior em todas as faixas socioeconômicas.

Detalhes da pesquisa indicam que o maior impacto do ensino integral beneficia os estudantes em situação de maior vulnerabilidade. As 1.166 escolas de tempo integral com os níveis socioeconômicos mais baixos (II e III) registraram uma vantagem de 0,6 pontos no Ideb, superando em 15% o desempenho de 1.713 escolas parciais do mesmo patamar.

A comparação do ganho no Ideb entre escolas de diferentes níveis socioeconômicos mostra que o impacto da jornada ampliada é quase 70% maior nas unidades mais vulneráveis, em contraste com as de contextos menos desfavorecidos.

O Instituto Natura Brasil conclui que a política de ensino integral oferece mais oportunidades de aprendizagem aos alunos que mais necessitam, conforme observado por Maria Slemenson, superintendente de Políticas Educacionais da instituição.

Maria Slemenson afirma que, historicamente, a qualidade educacional era vista como um reflexo da riqueza de uma região. No entanto, o ensino médio integral tem demonstrado, a cada edição do Ideb, que quando a política é priorizada e bem executada, os resultados de aprendizagem podem se desvincular da renda familiar e da capacidade fiscal do estado.

Diante disso, o Instituto Natura considera o programa Escola em Tempo Integral do Ministério da Educação (MEC) como a política pública mais eficaz para “reduzir, de forma estrutural, a desigualdade educacional herdada pelo Brasil”.

Salto no Saeb Equivale a Anos Extras de Estudo

Os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2025, que avalia a qualidade do ensino em todo o país a cada dois anos por meio de provas de matemática e língua portuguesa, também evidenciaram os impactos positivos das escolas de ensino médio integral.

No componente de matemática, estudantes de escolas integrais de baixo nível socioeconômico alcançaram 23 pontos a mais no Saeb 2025 em comparação com alunos do ensino parcial. Essa diferença de proficiência representa o equivalente a 4,6 anos adicionais de aprendizado.

A especialista em educação do Instituto Natura Brasil, Maria Slemenson, destaca que o tempo estendido no modelo integral possibilita a recuperação de aprendizagens defasadas do ensino fundamental, minimizando lacunas. Ela explica que “isso só é possível porque o tempo extra é usado para dois movimentos que, em uma escola parcial, competem pelo mesmo período curto: avançar no conteúdo da série e, ao mesmo tempo, recompor o que ficou para trás”.

Slemenson observa que, em escolas de tempo parcial, intervenções para recomposição de aprendizagem raramente se encaixam na grade curricular, enquanto nas instituições integrais, essa prática é parte da rotina.

Em língua portuguesa, a mesma comparação revelou um ganho de 21 pontos no Saeb 2025, o que significa uma aceleração de 3,2 anos de escolarização adicional para jovens em maior vulnerabilidade.

Maria Slemenson ressalta que o modelo de ensino integral impulsiona significativamente o desenvolvimento da leitura e escrita.

Ela atribui esse avanço ao “tempo maior na escola, à maior proximidade com o corpo docente e à conexão com o projeto de vida, um dos pilares da política de ensino médio integral”.

Inclusão Racial e Equidade

Além do aspecto socioeconômico, os dados indicam que o benefício do ensino integral é ainda mais acentuado em escolas com maioria de matrículas de pessoas pretas, pardas ou indígenas (PPIs).

No Brasil, aproximadamente 74% das escolas estaduais urbanas de tempo integral, com resultados divulgados no Ideb 2025, atendem a uma maioria de estudantes PPIs.

Em instituições de ensino médio onde mais de 80% dos estudantes são PPIs, a nota média do Ideb atinge 4,9 no modelo integral, em comparação com 4,3 no ensino parcial, representando um avanço de 0,6 ponto.

O Instituto Natura Brasil aponta que esse resultado demonstra como a expansão do tempo integral tem contribuído diretamente para a redução das disparidades de desempenho escolar ligadas à cor e raça.

Maria Slemenson, do Instituto Natura, celebra que “a política de tempo integral já está majoritariamente a serviço de quem mais precisa dela. O Ideb comprova, com dado concreto, que o tempo integral tem um efeito equalizador racial, além do efeito socioeconômico”.

O Segredo do Sucesso

O Instituto Natura enfatiza que o sucesso e o impacto superior do ensino médio integral em alunos de baixa renda não se devem apenas ao aumento de horas na escola, mas à forma como esse tempo é empregado.

O modelo pedagógico se baseia em pilares interligados:

  • Construção do projeto de vida e protagonismo juvenil, estimulando a autonomia e o planejamento de futuro dos jovens.
  • Acolhimento, oferecendo acompanhamento socioemocional próximo e individualizado.
  • Aprendizado na prática, promovendo a conexão com o mundo real.
  • Orientação de estudos e tutoria, para estruturar e potencializar a aprendizagem diária.

Maria Slemenson, superintendente do Instituto Natura, destaca que esse conjunto de pilares confere à educação integral uma vantagem significativa sobre o modelo parcial, especialmente em regiões socioeconomicamente mais vulneráveis, onde sua necessidade é maior.

Ela complementa que “para o aluno de baixa renda, que muitas vezes não tem em casa o suporte, o acompanhamento ou a segurança que passam a existir dentro da escola de tempo integral, esse modelo pesa ainda mais”.

Por essa razão, o Instituto Natura defende que a política de Ensino Médio Integral seja cada vez mais reconhecida como fundamental para o desenvolvimento do país, pelos benefícios da jornada ampliada, redução da vulnerabilidade social e maior proteção aos estudantes.

Desafios e Gargalos

Em 2025, apesar de as escolas de ensino médio integral totalizarem 4.235 unidades no Brasil (21% do total), elas representam aproximadamente 214 mil matrículas urbanas avaliadas.

Em contraste, o modelo de jornada parcial ainda abrange mais de 1 milhão de estudantes.

Ao analisar os obstáculos para a transição do ensino parcial para o integral nas redes estaduais, o Instituto Natura do Brasil conclui que a prioridade política é crucial para o sucesso do modelo. A superintendente da instituição enfatiza que a principal barreira não é financeira, mas sim a gestão governamental consistente ao longo do tempo.

Maria Slemenson afirma que “o Ideb 2025 mostra que estados com menos capacidade fiscal, quando tratam o tempo integral como prioridade de governo e não como projeto pontual, conseguem avançar tão rápido quanto, ou mais rápido, que estados mais ricos”.

Maria Slemenson também destacou o Piauí como referência nacional no ensino médio público e líder em educação profissional e tecnológica integrada. O estado nordestino foi pioneiro e é o único no Brasil com 100% das escolas estaduais de ensino médio em tempo integral.

A especialista ressaltou que “essa transformação foi construída em poucos anos, entre 2022 e 2025, e prova que universalizar o tempo integral com qualidade é uma escolha possível mesmo para estados com menos recursos financeiros disponíveis”.

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