Rondônia

Pesquisa revela desafios de mães empreendedoras para conciliar negócio, casa e família

Redação

Desafios e Realidades das Mães Empreendedoras no Paraná

Uma pesquisa conduzida pelo Sebrae/PR com 650 mulheres empreendedoras em diversas regiões do Paraná aponta que a maternidade desempenha um papel fundamental na organização e condução de seus negócios. O estudo, realizado entre março e abril deste ano, detalha uma rotina marcada pela necessidade de conciliar a administração da empresa com os cuidados dos filhos, as responsabilidades domésticas e a geração de renda, além de identificar os principais obstáculos enfrentados por essas mães no estado.

Letícia Monteiro Pimentel, consultora do Sebrae/PR, avalia que os dados sublinham um desafio estrutural na harmonização entre maternidade e empreendedorismo. A pesquisa indica que 60% das mães empreendedoras consideram a gestão do tempo como seu principal obstáculo, e 42% se declaram as principais responsáveis pelos cuidados com os filhos.

Segundo Pimentel, essa concentração de responsabilidades limita o tempo disponível para atividades cruciais de gestão, como planejamento, capacitação, inovação e prospecção de clientes. Ela ressalta que essa situação não decorre de falta de capacidade, mas da dificuldade de equilibrar tantas tarefas, o que pode impactar até mesmo o faturamento dos negócios.

A consultora sugere que o avanço em políticas públicas, a ampliação do acesso à educação empreendedora e o fortalecimento de redes de apoio são essenciais para que essas mulheres possam desenvolver seus empreendimentos. O estudo também revela que 13% das mães empreendedoras têm filhos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou outras necessidades específicas, o que intensifica os desafios diários e exige um planejamento ainda mais rigoroso.

Empreendedorismo Materno: Motivação e Autonomia

Na análise de Fernanda Robes, também consultora do Sebrae/PR, os resultados demonstram a interligação entre maternidade, autonomia e responsabilidade financeira na trajetória das mães empreendedoras. Conforme a pesquisa, 52% delas afirmam que a maternidade é uma motivação para empreender, e 71% já eram mães antes de iniciar seus negócios.

Para Robes, esses números indicam que o empreendimento se integra à organização da vida familiar e à busca por renda, flexibilidade e independência. Ela comenta que a maternidade surge tanto como um estímulo para empreender quanto como uma realidade que essas mulheres precisam gerenciar diariamente. Para muitas, o negócio representa autonomia, mas também uma maneira de sustentar a família e estruturar a rotina em torno dos filhos.

As histórias de empreendedoras paranaenses ilustram, na prática, como maternidade, trabalho, renda, cuidado e autonomia se entrelaçam na vida de mulheres que empreendem.

Inovação a partir de uma experiência familiar

Em Marechal Cândido Rondon, no oeste do Paraná, a pesquisadora e empreendedora Ana Maria Silva transformou uma experiência pessoal em inovação. Doutora em Desenvolvimento Rural Sustentável, mestre em Biotecnologia Marinha e engenheira de Pesca, ela desenvolveu sorvetes à base de tilápia e frango, inspirada na dificuldade de alimentação de sua filha durante o tratamento de câncer em 2019.

Ana Maria relata que tudo começou quando sua filha enfrentou um câncer de mama gestacional. A menina consumia sorvete para aliviar a dor, mas tinha dificuldade em ingerir outros alimentos, especialmente proteínas, durante a quimioterapia, o que era agravado por feridas na boca.

Com sua experiência em estudos com proteína animal desde 2008, Ana buscou uma solução que unisse pesquisa, nutrição e acolhimento. A ideia do sorvete à base de tilápia surgiu nesse contexto familiar e reorientou seu trabalho. Após a recuperação da filha, que também teve uma gestação bem-sucedida, outras pessoas começaram a procurar os produtos de Ana.

Atualmente, a NILO By Lysis, localizada em Marechal Cândido Rondon, emprega 30 colaboradores terceirizados e é reconhecida pela produção de alimentos com proteínas animal e vegetal. O catálogo inclui sorvetes com proteínas de frango e arroz, além de sopas, caldinhos, barrinhas de cereais, iogurtes e queijos que utilizam proteína de tilápia. Desde o início, a jornada exigiu dedicação, pesquisa e apoio.

Ana Maria destaca o papel fundamental do Sebrae, que a acompanhou desde 2019, contribuindo para o reconhecimento da empresa, especialmente em eventos estratégicos. O objetivo é continuar crescendo e inovando para desenvolver mais produtos e oferecer nutrição saudável e adequada em todo o Brasil.

A empresa foi agraciada com o primeiro lugar na categoria Recursos Renováveis para pequenas empresas no Prêmio Nacional de Inovação, e obteve recursos para validar seus sorvetes e outros alimentos funcionais em hospitais oncológicos.

Rotina reorganizada entre empresa e família

Em Maringá, no noroeste do estado, a empresária Tatiane Fonseca Nehring, de 42 anos, também encontrou no empreendedorismo um caminho ligado à família. Filha de empresários, ela herdou o desejo de ter um negócio no ramo de madeiras e, há 17 anos, comanda a Santa Rita Madeiras ao lado do marido.

Dois anos após abrir a empresa, Tatiane realizou outro desejo: o de ser mãe. Hoje, com dois filhos de 15 e 10 anos, ela conta que precisou reorganizar a rotina para equilibrar o negócio e a maternidade.

Ela relata que precisou reduzir sua carga horária de trabalho para estar mais presente na vida dos filhos, especialmente nos primeiros anos. Com isso, seu esposo também assumiu mais responsabilidades na empresa e na rotina familiar. Foi um período de adaptação que, segundo ela, os fortaleceu muito.

Com os filhos mais velhos, Tatiane ajustou a rotina. Atualmente, dedica meio período aos filhos e o restante do tempo à empresa. Profissionalmente, seu objetivo é expandir o negócio. Como mãe e empreendedora, ela aspira construir um legado de trabalho, fé, integridade e serviço para a família, além de demonstrar que o empreendedorismo feminino pode ser uma ferramenta de transformação.

Tatiane justifica que, quando uma mãe empreende, ela não apenas contribui para a renda familiar, mas também desenvolve autonomia e confiança. Além disso, ela se torna um exemplo para os filhos, transmitindo valores como dedicação, responsabilidade e perseverança. O empreendedorismo a ensinou a ser mais resiliente, organizada e determinada. Como profissional, aprendeu a enfrentar desafios, tomar decisões importantes e buscar crescimento constante. Como mãe, o empreendedorismo lhe mostrou a importância do equilíbrio entre o trabalho e a família.

Carreira redesenhada após a maternidade

Em Cascavel, no oeste do Paraná, a arquiteta Aline Rodrigues Silveira também reavaliou sua trajetória profissional após a maternidade. Antes da chegada dos filhos, sua rotina era intensa, dividindo-se entre o trabalho em um escritório de arquitetura, aulas em uma universidade e viagens de fim de semana para ministrar cursos de pós-graduação em diversas capitais brasileiras.

Com o nascimento da filha Maria, Aline deixou as viagens e diminuiu a carga de trabalho para acompanhar os primeiros anos da menina. Pouco tempo depois, com a chegada de João, percebeu a necessidade de um modelo profissional mais flexível e alinhado à rotina familiar.

Ela relembra que, antes das crianças, era professora e trabalhava em um escritório, dedicando o dia ao escritório, a noite à universidade e os fins de semana a viagens para pós-graduação. A primeira adaptação, ainda durante a gravidez, foi suspender as viagens por orientação médica.

Após o nascimento de Maria, Aline manteve apenas parte de suas atividades profissionais. Quando João nasceu, cerca de dois anos depois, sair de casa à noite deixou de fazer sentido. Foi então que ela decidiu deixar o escritório onde trabalhava e buscar alternativas que lhe permitissem maior presença na criação dos filhos.

Nesse processo, a arquiteta começou a desenvolver novos projetos. Criou workshops para estudantes de Arquitetura, idealizou uma marca especializada em projetos infantis e aprofundou seus estudos sobre quartos de bebê e educação montessoriana.

Aline afirma que percebeu um nicho a ser explorado e que sua experiência como mãe faria toda a diferença.

A busca por novos caminhos também a aproximou de outras mulheres empreendedoras. Juntas, organizaram a Feira da Mamãe Empreendedora em Cascavel, uma iniciativa que reuniu mães que conciliavam negócios e maternidade. No início de 2021, a arquiteta também passou por sociedades, atuou na área de consultoria empresarial e consolidou um modelo de trabalho que respeita tanto sua profissão quanto sua maternidade. Para ela, o principal desafio continua sendo a organização do tempo.

Ela relata que a dificuldade é realmente conciliar o tempo entre suas duas funções principais. Possui várias limitações de horário e, muitas vezes, precisa levar os filhos consigo para obras, lojas, reuniões ou para o escritório. Quando surge uma viagem ou um projeto que exige vários dias de dedicação, tudo precisa ser meticulosamente planejado.

Recomeço profissional com apoio da filha

Em Guarapuava, a história da empresária Jimara de Góes Wilke mudou a partir de um presente de sua filha mais velha. Após anos dedicados à família, ela recebeu da filha um curso de cabeleireira e encontrou um novo caminho profissional.

Jimara relembra que se casou e era muito difícil conciliar trabalho, estudos e a vida familiar, o que a levou a deixar os estudos de lado. Suas filhas cresceram e a mais velha a presenteou com um curso de cabeleireira. Em 2011, ela abriu um CNPJ e começou a atuar como cabeleireira e maquiadora, realizando atendimentos a domicílio para noivas e debutantes.

Em 2017, aos 42 anos, Jimara decidiu concluir o Ensino Médio. Em seguida, fez curso técnico em estética, graduação em terapias integrativas e pós-graduação em terapia capilar e tricologia. Com a nova formação, ampliou os serviços oferecidos e viu sua clientela crescer. A expansão levou à necessidade de abrir um espaço próprio, e sua primeira iniciativa foi buscar o Sebrae/PR.

Com o crescimento do Salão Jimara Wilke, em Guarapuava, a empreendedora buscou mais conhecimento. Em 2025, decidiu afastar-se temporariamente da rotina intensa do salão para se capacitar. Participou de cursos da Vigilância Sanitária e de formação em panificação e produção de pães artesanais promovidos pela Prefeitura. O objetivo foi agregar um diferencial ao atendimento personalizado.

Ela comenta que produz pães, bolos e oferece café e cappuccino todos os sábados às clientes, buscando que elas se sintam acolhidas em seu espaço.

Apoio Essencial para o Crescimento

Apesar dos desafios identificados pela pesquisa, a consultora Letícia Pimentel observa avanços significativos na trajetória das mães empreendedoras.

Ela afirma que elas estão empreendendo mais. Muitas ainda atuam na informalidade, mas buscam a regularização, ocupam mais espaços de liderança e passam a ver o negócio como fonte de renda, independência e autonomia financeira para si e suas famílias.

Para sustentar esse crescimento, Pimentel avalia que o apoio às mães empreendedoras precisa ir além do acesso ao crédito. O levantamento mostra que 25% delas apontam o financiamento em condições especiais como o principal fator de apoio, mas também surgem demandas como apoio psicológico, capacitações flexíveis, serviços de cuidado infantil e grupos de apoio entre mães e empreendedoras. A pesquisa reforça que o fortalecimento desses negócios depende de soluções que proporcionem mais previsibilidade, estabilidade, equilíbrio emocional e otimização do tempo.

Na prática, segundo a consultora, isso envolve ajustar horários, formatos de atendimento e canais de venda para construir uma rotina mais flexível e sustentável; reorganizar processos, tarefas e prioridades para reduzir a sobrecarga; estabelecer limites operacionais mais claros; fortalecer redes de apoio pessoais e profissionais; buscar capacitações compatíveis com a rotina; e estruturar o planejamento financeiro, com reservas, metas e controle mais eficiente.

Pimentel conclui que é uma combinação de crédito, conhecimento, organização e rede de apoio. Quando a empreendedora consegue abordar esses pontos de forma integrada, aumentam as chances de crescimento do negócio sem aumentar ainda mais a sobrecarga.

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