Durante a solenidade de entrega de credenciais a novos advogados e advogadas, o presidente da OAB Rondônia, Márcio Nogueira, destacou que o sistema de justiça brasileiro enfrenta um dilema. Ele ressaltou que a advocacia deve atuar como um pilar para evitar o afastamento entre as decisões judiciais e a percepção de justiça pela sociedade.
Em um evento com a presença de novos profissionais, familiares e autoridades, Nogueira apontou que, apesar do expressivo aumento no número de processos, que já supera 80 milhões, esse crescimento não tem resultado em maior confiança por parte da população.
“Quanto mais o sistema cresce, mais ele se distancia das pessoas. Quanto mais produz decisões, menos produz confiança. Isso não é um problema técnico. É um problema de direção”, declarou Márcio Nogueira.
O perigo do “modo automático”
O presidente da OAB Rondônia alertou os novos profissionais sobre as exigências do mercado jurídico atual, que frequentemente induzem à repetição de padrões e à busca por volume de trabalho. Ele enfatizou que a advocacia demanda consciência para reconhecer que cada caso representa uma história humana.
“A advocacia que vocês encontrarão tende a empurrá-los para o automático. Mas vocês não estão aqui para ocupar espaço. Estão aqui para construir trajetória. E trajetória se constrói com decisão”, afirmou.
Márcio Nogueira também salientou que a eficiência tecnológica e a automação, apesar de seus avanços, não devem suplantar o verdadeiro propósito do Direito. “Eficiência sem escuta não é justiça”, pontuou ele.
Desafio institucional e limites do poder
Em um trecho mais incisivo de seu discurso, o presidente da Seccional abordou a crise observada nas esferas superiores do sistema de justiça. Márcio Nogueira defendeu que situações que provocam instabilidade e comprometem a coerência institucional, mesmo nos mais altos escalões da República, não podem ser ignoradas.
“Não existe Estado de Direito sem mecanismos de controle e responsabilização. E esses mecanismos precisam alcançar todos — sem exceção. A autoridade que se distancia do controle compromete a confiança que a sustenta”, disse ele.
Para o presidente da OAB Rondônia, a função da advocacia é assegurar que o sistema jurídico mantenha sua fidelidade aos princípios que o fundamentam, atuando com expertise e bravura frente às incertezas legais.
“A advocacia não existe para se adaptar ao sistema. Existe para garantir que o sistema permaneça fiel àquilo que o legitima. Não fomos formados para repetir o Direito, mas para sustentá-lo”, declarou Nogueira.
A cerimônia contou com a participação de Héverton Aguiar, corregedor-geral do Ministério Público de Rondônia, como paraninfo. Márcio Nogueira mencionou a carreira do procurador de justiça como um modelo de que o exercício do poder exige, primordialmente, o respeito aos seus limites.
“Ele representa, na prática, o que sustenta qualquer sistema sério: a compreensão de que exercer poder é, antes de tudo, aceitar limites. Responsabilidade não é discurso; é prática contínua”, destacou o presidente.
O futuro e a clareza de escolha
No encerramento da solenidade, o presidente reiterou que, embora a OAB Rondônia ofereça suporte aos profissionais em suas prerrogativas, a responsabilidade sobre o impacto de sua atuação recai sobre cada novo advogado.
“A tecnologia vai avançar, a pressão por escala vai aumentar. Mas a advocacia não será lembrada pelo volume que produziu. Será lembrada pelas decisões que teve coragem de sustentar. Essa escolha começa agora”, finalizou Márcio Nogueira.
A cerimônia reforçou o compromisso da OAB Rondônia com a formação de uma advocacia que seja técnica, corajosa e humanizada, apta a enfrentar os desafios de um sistema de justiça em constante evolução, sem negligenciar a responsabilidade institucional.